Atitudes Mindful: o que elas realmente significam (e o que NÃO são)
Atitudes Mindful: o que elas realmente significam (e o que NÃO são)
No consultório, percebo que muitos pacientes chegam com uma ideia distorcida sobre o Mindfulness. Com a popularização do termo, ele acabou sendo confundido com "esvaziar a mente", "não sentir raiva" ou uma espécie de positividade forçada.
Como médica, meu papel é esclarecer: Mindfulness não é sobre mudar o que você sente, mas sim mudar a forma como você se relaciona com o que sente. Não se trata de buscar um estado de paz artificial, mas de desenvolver a capacidade de observar a própria experiência interna com critério e clareza.
Mindfulness não é positividade tóxica
Existe uma diferença fundamental entre ser "atento" e ser "otimista a qualquer custo". A positividade tóxica tenta apagar o desconforto, enquanto o Mindfulness ensina a suportá-lo.
Muitas vezes, a ciência é simplificada em narrativas rasas. Um exemplo clássico disso é como alguns estudos, como o famoso caso das adolescentes na ilha de Fiji, são interpretados de forma apressada. Da mesma forma que não podemos reduzir transtornos complexos a uma única causa simplista, não podemos reduzir a saúde mental a "pensar positivo". A mente humana exige uma análise multifatorial e profunda.
As atitudes que sustentam o tratamento
Para que o Mindfulness tenha efeito terapêutico real, ele precisa ser baseado em certas atitudes fundamentais:
- Não-julgamento: Não é sobre "gostar" de um pensamento triste, mas parar de se culpar por tê-lo. É assumir o papel de um observador curioso da própria mente.
- Aceitação: Este é o ponto onde muitos confundem com passividade. Aceitar não é desistir de melhorar ou se conformar com o sofrimento. Aceitação, na clínica, significa reconhecer o fato presente (como uma crise de ansiedade) para, então, conseguir manejá-lo com as ferramentas corretas. Sem aceitar o diagnóstico, o sofrimento apenas se prolonga.
- Mente de Principiante: É a disposição de olhar para um sintoma antigo como se fosse a primeira vez, sem os vícios de interpretação que a autocrítica constante nos impõe.
- Paciência: O cérebro tem um tempo biológico para se reorganizar. No tratamento psiquiátrico, respeitar esse ritmo é essencial para uma mudança sustentável.
Por que isso importa na clínica?
Quando aprendemos a nos relacionar de outra forma com a nossa experiência interna, paramos de lutar contra nós mesmos. O Mindfulness oferece um "espaço" entre o estímulo (a emoção) e a resposta (o comportamento).
Encerrar o dia com essa consciência não é ser improdutivo; é permitir que o sistema nervoso se regule de forma real, e não apenas se anestesie com prazeres imediatos. A clareza sobre o próprio funcionamento é, afinal, o primeiro passo para a autonomia e a cura.